segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Soneto a Santiago

"A Machado de Assis, que me concedeu
o primeiro, o décimo primeiro e o
décimo segundo versos deste soneto."


Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Tu me examinas assim como um réu,
Pousas os olhos sobre mim, crua,
Que pairam, de cigana e de ressaca, no céu.

De cigana astuta, oblíqua e dissimulada,
De ressaca, que me traga e mantém
Meu querer em sua boca adocicada,
E de réu, me faz seu maior refém.

Deixo minha mãe, minha casa,
Minhas esperanças em seu coração,
Para poder ser livre, abrir as asas.

Perde-se a vida e ganha-se a batalha?
Ou perde-se a batalha e ganha-se a vida?
É um delicado fio, na face de uma navalha.

(Carlos A. T. Rossignolo)

Miles Away

Estava muito distante,
A pensar em seu olhar,
Deslumbrava por um instante,
Em seus cabelos o vento soprar.

Meus olhos fitavam os seus,
Suspiros eram invocados por nós,
Seus olhos fitavam os meus,
Estávamos dois, a sós.

Sua mão se entrelaçou à minha,
E ficaram em fogo ardente,
Grudadas como a vinha,
Observando o sol poente.

Meu sorriso me traiu,
Esbanjava satisfação,
Uma lágrima de seus olhos caiu,
E regou a flor em meu coração.

Em um momento divino,
Os anjos com as asas esconderam,
O sol que estava caindo,
E os corações da Terra amoleceram.

Só os anjos testemunharam aquele beijo,
Aquele beijo leve, doce, a molhar,
A conceder a luz e meu desejo,
Que estavam vindo nas ondas do mar.

(Carlos A. T. Rossignolo)

Memórias

Vago sozinho pelas noites escuras,
Sinto a névoa cobrir minha face triste,
Não há mais ninguém solitário na rua,
E já não sei se o perdão existe.

Navego perdido pelas minhas memórias,
Tentando me encontrar em algum lugar,
Tentando escrever minha própria história,
Sob a face pura do luar.

Olho para um lado e há escuridão,
Olho para outro e temor entra em meu coração,
Não sei se existe o perdão,
Ou se é fruto da minha imaginação.

Se real for, um dia saberei,
Se não for tarde demais, sonharei,
E se for pra ser, alcançarei.

Estarei lutando, buscando minha paz,
Que vem em bandeja, e o Serafim a traz,
Puro, alvo, calmo e num sopro, se desfaz.

Ao olhar não o vejo mais, escureceu,
Seu doce olhar de misericórdia desapareceu,
E consigo seu canto alegre emudeceu.

(Carlos A. T. Rossignolo)

Iluminado

Estavam os raios de luz monocromáticos na janela,
Em que passavam refratando e refletindo;
O som que saia da tampa da panela,
Ia me atingir, me fazer calar, ouvindo.

Essa ondas vibravam, diferentes das do mar,
Me atingiam, me tocavam, traduziam;
Conflitavam com meu eu, me fazia pensar,
E assim, as crianças que as ouviam, sonhavam.

No canto da sala um piano que tocava,
Espalhava suas notas melancólicas pelo ar,
E meus ouvidos, do mundo me cegava.

Só havia o sentir, não conseguia mais pensar,
E o vento deslizante que chegava,
Trazia os suspiros satisfeitos das ninfas do mar.

(Carlos A. T. Rossignolo)

Divino

Me encontro aflito, apático, triste,
Não me apetece mais atuar,
Se é que o Amor existe,
Ele não me ensinou amar.

Oh Deus! Em sua mais bela criação,
Tu nos deste sabedoria,
E não tenho em meu coração,
O mais nobre sentimento que temia.

Tu fizeste céu e terra,
E não olhaste para mim,
Estou comigo em guerra,
Ao olhar o mundo, só vejo fim.

Tu me deste esses lábios,
Essas mãos que escrevem poesia,
Mas eles já estão cálidos,
Não há mais a vontade que sentia.

Estou triste, estou morrendo,
A vida tornou-se escura,
Não consigo continuar vivendo,
Não vejo mais sua face pura.

Tu se ausentaste de mim por agrado,
Não sinto mais sua presença,
Não me deixarás seu legado,
Se eu falhar na crença?

Tu, bom pai,
Que ama o mais desprezível ser,
Sabes que nos atrai
Esse mal que nos faz morrer.

Queria uma chance,
Um voto de confiança,
Assim quem sabe alcance,
A tão linda fé de uma criança!

(Carlos A. T. Rossignolo)

Dead Poets Society

Poesia é entender a vida,
Escrever é ser humano,
Libertar-se da mais pura lida,
E enfrentar o tirano.

Ser poeta é compartilhar
Amores, dores, alegria e medo,
Em uma caverna declamar,
O livro apoiado aos dedos.

A vida deve ser desafiada,
Entendida. Em si respeitada,
Pois é frágil, entre a espada.

Sou poeta, sou ator
No palco da vida, no amor,
Enchendo-me de esplendor.

Carpe Diem...

(Carlos A. T. Rossignolo)

Angelical

Em minha cabeça havia um pensamento,
Tímido, fraco, transparente como o vento,
E ganhava volume com o tempo, me fazia aflito,
Fazia em mim uma guerra, um enorme conflito.

Era puro, alvo e provinha do amor,
Queria o bem ao meu semelhante sem dor,
Queria estar perto, queria acariciar,
Poder fazer de seu leve colo, seu deitar.

Mas esse sentimento não era correspondido,
E então ao anjo atendi o pedido,
Arranquei-o de minha mente sem medo,
E ao anjo entreguei esse meu profundo segredo.

Não é justo amar desta forma incondicional,
Sem ser ao menos respeitado, ser livre do mal,
Não há razão nisto, nunca haverá,
E a morte deste sentimento, o brilho angelical velará.

(Carlos A. T. Rossignolo)